sábado, 12 de maio de 2012

GUINÉ BACHILE- 1972-1974 XIII









 No mato, só era possível beber água depois der previamente tratada com dois comprimidos e filtrada de forma a eliminar os micróbios existentes mas que lhe dava um sabor bastante desagradável. Se fosse guardada água numa garrafa de vidro transparente de um dia para o outro, a má qualidade da água fazia alterar por completo a cor da garrafa.

 Entretanto Spínola é substituído a 6 de Agosto pelo então General Bettencourt Rodrigues, motivado ao que se crê por uma sua declaração, após encontros com o Presidente Senghor do Senegal no sentido de se encontrar uma solução política para o fim do conflito.

         Marcelo Caetano pôs fim a estes contactos, respondendo com a conhecida frase “Prefiro um desastre militar na Guiné a negociar seja com quem for”.

         Estavam mais uma vez lançadas as sementes da contestação à guerra colonial na Guiné.

 As NT iam somando insucessos, alguns dos quais de grande gravidade, continuava o abandono de alguns locais e as retiradas dramáticas de outros com gravíssimas consequências.

 Nesta altura já se destacava pela sua acção empenhada Salgueiro Maia, cuja companhia de cavalaria já tinha terminado a sua comissão aguardando embarque para Lisboa.

         Quando o General Spínola deixa a Guiné, já é bem perceptível algum mau estar entre os oficiais milicianos e já frequentemente nos chegavam rumores de reuniões do que viria a ser o movimento dos capitães.

 Começa a ser perceptível alguma alteração de comportamento dos oficiais responsáveis pelas operações militares no território, a estratégia de guerra estava a mudar, não por medo pois alguns deles já tinham a experiência de seis e oito anos de conflito, já se tinham habituado e conheciam-na   muito bem, mas sim por respeito

 Nas suas unidades militares ou no mato, estes conviviam com as dificuldades, com as realidades e contradições.
 Conviviam igualmente com as camadas mais politizadas vindas das universidades que reflectiam e interrogavam-se sobre aquela guerra e o regime que a impunha.
 Este sentimento comum começou a fazer-se sentir nos capitães dos três ramos das forças armadas, logo no início do ano de 1973, quando alguns dos oficiais resolveram sair dos seus gabinetes com ar condicionado e despertaram para a realidade.
 Em 24 de Setembro de 1973 o comandante Nino Vieira declara uniteralmente a independência da Guiné na região desabitada de Madina do Boé, e prontamente reconhecida pela maioria dos países da ONU.
 Foi um ano extremamente difícil e esta atitude veio reforçar mais ainda o ânimo dos guerrilheiros que sabiam aproveitar cada vez mais a nossa frágil e deficiente organização, encetando algumas acções de notável envergadura até ao final do ano.



 Finalmente entramos no ano de 1974 e no horizonte já se perspectiva o final da minha comissão, começo a utilizar diversos contactos de forma a saber quando estaria prevista a mobilização do meu periquito.
 Altero um pouco alguns dos meus comportamentos no sentido de não arriscar como até aqui nas mais diversas situações.
 Passei a deslocar-me menos vezes a Bissau e quando o fazia protegia-me não me expondo demasiado e evitando situações mais dúbias.
 No quartel também alterei algumas das minhas atitudes quer no desemprenho das minhas funções como militar, quer nos momentos de maior descontracção.
 Cheguei a recusar fazer a limpeza do paiol com o sargento Guerreiro, porque considerei ser demasiado arriscado separar granadas de dilagrama, supostamente deterioradas, forçando a separação colocando-as debaixo do pé, lançando para o mato as que nos ofereciam dúvidas.
 Reforço a ideia de neste inicio de ano, parecer haver uma certa tendência para as NT, encararem a guerra por outro prisma, fruto daquilo que seria uma pré preparação do que viria a ser o MFA (Movimento das Forças Armadas)
 As acções das tropas IN, continuam a ter grande expressão nos mais diversos pontos da Guiné e as suas consequências são bem visíveis no aumento do número de evacuações quer para o hospital militar de Bissau, quer mesmo para a metrópole nos casos que apresentam maior gravidade.
 Em Fevereiro deste ano é publicado o livro “Portugal e o Futuro”, de autoria do general António Spínola que defendia o fim da guerra e a liberalização do regime, criando desde modo um sentido mau estar nos meios políticos.

 Na perspectiva do regresso para breve, começo a organizar as ideias e sempre que não é possível deslocar-me a Bissau, peço a alguém da companhia para se informar sobre o embarque do meu periquito.
 Passei nesta altura por um período bastante tenso, por um lado porque o desgaste físico e psicológico já era grande, por outro a ansiedade natural de um regresso que se perspectivava para breve.
 Talvez causado por este estado de espírito, estive na iminência de complicar o fim da minha comissão e o consequente regresso, com um problema de ordem disciplinar, num conflito em que fui interveniente com um alferes que tinha chegado recentemente à companhia para completar um estágio de três meses numa unidade operacional, findo o qual regressaria à metrópole onde era promovido a capitão e posteriormente mobilizado para comandar uma unidade.
 Numa noite em que no bar de sargentos o movimento era muito, motivado pela presença de grupos de comandos e pára-quedistas que preparavam a saída para mais uma acção, o alferes José Manuel, já por mais de uma vez, tinha solicitado a minha presença junto da arrecadação para que procedesse à troca de uma peça de roupa da cama.
 Depois de o ter feito insistentemente sem qualquer resposta da minha parte, resolveu deslocar-se ao bar de sargentos e em termos que eu na altura considerei não serem os mais correctos, ordenou-me que largasse o que estava a fazer e fosse de imediato satisfazer o seu pedido.
 Como não lhe obedeci e ainda respondi igualmente de uma forma menos correcta, lembrando-lhe que já era muito tarde, que estava a trabalhar e que ainda tinha muito pela frente, no dia seguinte bem cedo sou alertado pelo furriel vago-mestre com a notícia de que o referido oficial estava a elaborar uma participação disciplinar dirigida ao comandante da companhia e contra a minha pessoa.
 

 Ciente das consequências que daí poderiam resultar, fui de imediato alertar o 2º sargento Guerreiro para o sucedido, pois só ele naquele momento podia fazer com que as coisas não tomassem proporções mais graves, tentando que o alferes desisti-se das suas intenções.
 Não o conseguimos demover e a participação seguiu em frente tendo-me sido levantado um auto, resultante de um processo disciplinar.
 Quase no final da comissão de serviço estava a ser pela primeira vez alvo da justiça militar e se o facto de não ter antecedentes podia de algum modo funcionar a meu favor, por a infracção ter sido cometida sobre um oficial podia ser mais complicado de resolver.
 Esta falta disciplinar, ao abrigo do RDM (Regulamento Disciplina Militar), resultava no mínimo na pena de oito dias de detenção e ao consequente adiamento do regresso que se podia prolongar em mais alguns meses.
 Fui ouvido pelo oficial nomeado para os problemas disciplinares, um alferes miliciano operacional da companhia, pessoa de grande flexibilidade e de apurado sentido de justiça, natural de Chaves e com quem pontualmente fazia umas patuscadas.
 Reunimo-nos na sala destinada para esse efeito, ouvindo a minha versão dos acontecimentos e confrontando-a com o que constava na participação.
          Considero ter tido muita sorte porque este oficial com quem eu tinha um óptimo relacionamento pessoal, elaborou o auto de uma forma muito favorável, tentando minimizar as consequências da eventual pena.
 Durante as mais de três horas em que declarei a minha versão dos factos, foram feitas interrupções pontuais porque tínhamos 
companhia, cerveja, queijo e presunto que o alferes tinha recebido há poucos dias da sua terra.
 Sei que a redacção final do auto foi por este oficial de alguma forma aligeirada para que a interpretação final atribuída pelo comandante, não fosse no sentido de a agravar.
 Terminado o auto, restava-me aguardar pelo veredicto final por parte do comandante da companhia, antes porém solicitei mais uma vez a intervenção do sargento Guerreiro junto deste.
 Alguns dias mais tarde sou chamado ao gabinete do capitão, que depois de demonstrar a sua reprovação pela minha atitude para com um oficial, alertou-me para a pena a que me sujeitava, sugerindo-me que poderia amenizar o meu castigo se fizesse um pedido de desculpas públicas ao alferes em causa.
 A minha pronta resposta foi a de que independentemente do castigo que entendesse atribuir-me, nunca da minha parte ia haver um pedido de desculpas por achar que apesar de eu não ter sido totalmente correcto, antes tinha sido o alferes extremamente incorrecto para comigo pela forma verbal e gestoal como se dirigiu a mim.
 Houve ali um longo período de insistência para que eu alterasse a minha posição mas, face à minha resistência e graças à intervenção do sargento Guerreiro, actuando no sentido de exaltar as minhas qualidades como homem e militar, o comandante acabou por ceder nas suas intenções, concluindo ir ficar sem efeito o castigo, não sem me ter dado uma enorme reprimenda que naquela fase já não causava grande impacto.
 Depois disto e no decorrer de um jogo de voleibol disputado entre oficiais e praças, ia surgindo outro conflito com a mesma pessoa após disputa de uma bola junto à rede que foi mal interpretada, face aos antecedentes ocorridos muito recentemente. 

   Na conclusão deste episódio, apetece-me fazer uma pequena referência a um poema de Manuel Alegre:
 
(Mesmo na noite mais triste / Em tempos de servidão, / há sempre alguém que resiste, / Há sempre alguém que diz não.)
 Resta-me acrescentar que já depois de terminada a comissão, encontrei casualmente o referido oficial agora já com a patente de capitão do exército português, numa rua de Lisboa, onde depois de um grande abraço fomos beber uns copos recordando de uma forma salutar e divertida este episódio que ficou completamente sanado.
 Depois de muita pesquisa e persistência, consigo finalmente saber que estaria previsto para meados do mês de Fevereiro a partida para a Guiné do militar que me iria substituir.
 De cada vez que uma coluna vinda de Bissau chegava a Teixeira Pinto, procurava via rádio do serviço de transmissões, saber se na mesma vinha algum periquito e caso afirmativo, quem é que vinha render.
 Era necessário confirmar muito bem qualquer informação, porque por vezes surgiam algumas intencionalmente falsas, fornecidas apenas com a intenção de se começar antecipadamente a comemorar pagando umas rodadas de cerveja.
 Finalmente e já muito próximo do fim do mês de Fevereiro, surge a boa notícia de que na coluna vinha um 1º cabo para o Bachile e para render o cabo Branco.
 Fiquei algo impaciente até a nossa viatura chegar ao quartel e apesar de nesse dia estar-mos por razões de segurança 
 sem iluminação, mesmo assim com todas as luzes apagadas, foi-me fácil perceber que na Berliet vinha um novo elemento distinguindo-se bem pela tonalidade da pele e pela boa conservação da sua farda, faltando só confirmar se de facto era o destinado a substituir-me.

 Logo que saltou da viatura perguntei quem ele vinha render, respondeu-me que era o cabo Branco, no entanto só depois de verificar cuidadosamente a respectiva guia de marcha, confirmei que efectivamente assim era e pode extravasar toda a ansiedade acumulada, procedendo à digna recepção ao novo elemento e comemorando com todos os camaradas aquele momento tão desejado.

 Depois da habitual praxe com que brindávamos os periquitos, seguiu-se mais uma improvisada festa que durou toda a noite em amena confraternização com muita comida e bebida e com a presença de um significativo número de camaradas.

 No dia seguinte foi minha intenção começar desde logo a passar o serviço para que tão rápido quanto possível o novo elemento estivesse em condições de desempenhar as suas funções, para que em breve pudesse fazer as malas e rumar a Bissau aguardando transporte para Lisboa.

 Alguns dias decorridos, já o periquito estava em condições de assumir o seu papel e informei o meu chefe o 2º sargento Guerreiro que no meu entender estava tudo pronto para que se procedesse à elaboração da respectiva guia que dava por concluída a comissão e me autorizava a ir para Bissau a aguardar disponibilidade de transporte.























GUINÉ BACHILE- 1972-1974 XII









 Por vezes, sentia-se necessidade em partilhar com alguém esses problemas.

 À noite era também fundamental montar cuidadosamente a rede mosquiteira na armação das nossas camas, porque caso contrário era um desassossego completo não só pela perturbação causada pela enorme quantidade de mosquitos mas também por outro género de visitantes

 Numa zona de habitat natural de imensos mosquitos que proliferavam aos milhões, espalhados por todo o lado na busca do seu alimento o sangue humano, eram os mais incautos ou os periquitos as principais vítimas, cujas picadas que para além de irritantes eram temidas pois eram através delas que se transmitia o paludismo, uma doença extremamente debilitante fisicamente e perigosa.

 Nos ferros da estrutura das cabeceiras das camas eram adaptadas ventoinhas dos mais diversos tamanhos para auxiliar a suportar o calor e evitar o ataque dos parasitas.

 Também era recomendado não afugentar as osgas ou as salamandras que andassem no tecto das nossas casernas, pois elas eram nossas amigas ajudando a eliminar os mosquitos.

 Estamos já com mais de metade do ano decorrido e as notícias vindas da metrópole relativas ao estado de saúde do meu pai não são nada animadoras, bem pelo contrário.

  Um dia sou chamado em privado ao gabinete do comandante que tomando conhecimento da situação através de uma mensagem que me enviaram com caracter de urgente, quis conversar comigo para se inteirar melhor sobre o assunto.

 O capitão Afonso, em colaboração com o sargento Guerreiro, conversaram comigo pormenorizadamente sobre o problema e de imediato me disponibilizaram todas as condições para o que fosse necessário, e se assim entendesse, no dia seguinte poderia embarcar para a metrópole.


 Ponderadas que foram algumas das várias hipóteses apresentadas acabei por resolver vir passar um período de férias de forma a acompanhar mais de perto a situação e em 18 de Agosto estava em Bissau para apanhar o Boeing da TAP que me trazia até Lisboa onde permaneci até 25 de Setembro.

 Regressei nesta data ao Bachile, para cumprir o que seriam provavelmente os últimos seis meses da minha comissão, perfeitamente consciente de ter pela frente um período de tempo que se adivinhava ser de imensos problemas para ultrapassar, mas convicto que o teria de conseguir independentemente do meu estado de espírito.

 A diversidade de acontecimentos ou de iniciativas tanto de âmbito militar como particular, faziam com que a rotina não tivesse espaço no nosso dia-a-dia, conseguindo manter preenchido quase a totalidade do nosso tempo.

 A Guiné apesar da sua simplicidade e pobreza, continuava a oferecer-me muito do seu enorme potencial quer paisagístico quer humano que absorvi muito intensamente durante a minha estada naquela terra e que ainda hoje guardo na memória com muita saudade todos os momentos vividos.

 O nascer de um novo dia, o cheiro característico a terra sentido particularmente no interior, o sabor das inúmeras variedades de frutos tropicais, a variedade de sons emitidos pelas diversas espécies de animais, o esplendoroso pôr-do-sol, o ruído frenético provocado por uma nuvem de insectos e particularmente a riqueza do contacto humano, são algumas das minhas maiores referências.

         As populações que habitavam os locais mais próximos da zona onde se situava o meu quartel, eram na sua grande maioria de etnia manjaca.

 
         Estes, eram de uma forma geral, bastante receptíveis e colaborantes, sentiam-se bem protegidos pelos nossos elementos, porque os guerrilheiros quando apareciam, matavam, saqueavam e destruíam tudo o que surgisse pela frente.
          Mesmo assim o povo não deixava de trabalhar a bolanha, (terreno algadisso, próprio para a cultura do arroz) tarefa na sua maioria o cargo das mulheres, ou de familiares dos soldados ao serviço da nossa companhia.
         Os Manjacos foram a etnia que eu melhor conheci, fruto de ter vivido quase dois anos no seu chão (território étnico) e por consequência com eles ter privado com maior proximidade.





         Um povo com uma das culturas mais ricas. Era fascinante a forma como desenvolviam os seus próprios códigos de ética sem necessidade de serem impostos de uma forma agressiva.
 Os Manjacos, até mesmo nas situações de infidelidade conjugal feminina, eram extremamente abertos pois a mulher não era imediatamente rejeitada, mas sim submetida a um ritual que consistia na realização de numa reunião efectuada num cruzamento de caminhos entre todos os homens adultos da tabanca e entre estes e o marido decidiam se a perdoavam do adultério.
 Se perdoada, o casal se reunia de novo não havendo lugar à mais pequena crítica entre os parentes, caso contrário cada um seguia a sua vida numa decisão assumida publicamente por toda a tribo mas isenta de quaisquer actos de violência.






         Eram normalmente as mulheres transportando os seus filhos às costas, que trabalhavam na bolanha em condições muito difíceis e por vezes com água por cima dos joelhos, enquanto os homens que não estavam inseridos nas forças armadas ficavam na fazenda sentados à sombra de um mangueiro ou de uma 

  palmeira, improvisando um espantalho e com o auxílio de uma extensa cana, afugentavam os macacos e outros animais das suas plantações que destruíam os seus bens agrícolas, ou então permaneciam junto à tabanca aguardando a hora da oração, virando-se para Meca rezando a Alá.
 Também eram elas as nossas lavadeiras que a troco de alguns pesos e géneros alimentares, cuidavam com esmero da nossa roupa que lavavam nas pedras junto ao rio e engomavam com o auxílio de um ferro aquecido por brasas.
 Nas nossas deslocações à cidade, era hábito trazer-lhes algumas lembranças em particular quando por ocasião do seu aniversário ou também no final da nossa comissão.
 De um modo geral os guinéus, apesar das diferentes etnias, eram um povo amável e hospitaleiro que bem mereciam o nosso apoio e amizade, e segundo relatos de visitas recentemente efectuadas por ex. combatentes àquele território, assim continuam não sendo visíveis quaisquer ressentimentos do passado.
 Este bom relacionamento com grande parte da população, criou alguns laços de grande proximidade entre os militares e as suas famílias, por isso eram frequentes os convites para estar-mos presentes nas suas festas tradicionais ou choros (conjunto de rituais) caracterizadas por belas e coloridas coreografias e manifestações culturais que podiam ser observadas na altura das colheitas, na celebração de casamentos ou de funerais e ainda nos rituais de iniciação de parentes, vizinhos ou amigos e que proporcionava a apresentação do que de melhor tinham para comer e vestir.
No casamento de um filho, no fanado (festa da circuncisão, ritual da passagem da puberdade para a vida adulta) ou nas cerimónias associadas à M G F (mutilações genitais femininas), praticadas por fanatecas (mulher que pratica a mutilação genital feminina)

 ainda muito em prática nalgumas das trinta étnias entre as quais os Fulas, Balantas, Mandingas e outros islamisados.
 Apesar de já existir legislação na Guiné Bissau proibindo a MGF, este acto continua a ser praticado em grande parte do território e em condições muito precárias, utilizando navalhas, canivetes e até pedaços de vidro sem condições mínimas de higiene, sendo a causa de consequências médicas e psicológicas em mais de 250 mil mulheres anualmente, provocando lesões que no futuro podem vir a facilitar a transmissão do vírus HIV.




         A festa fazia parte do quotidiano do povo da Guiné e nestas nunca podia faltar o seu instrumento típico, o Bombomlom (instrumento musical, espécie de tamborim feito a partir do côncavo de um tronco de árvore)
 É também uma festa na tabanka, o dia em que as raparigas de religião Animista (que praticam o culto do irã, ser sobrenatural) são atraídas pelos tambores e danças, correndo na companhia das amigas muçulmanas, em direcção ao local do fanado com os corpos pintados com farinha de arroz e pó de talco.
         Os Animistas acreditam que todos os elementos são passíveis de possuírem sentimentos emoções, vontades ou desejos e até mesmo inteligência.
 De uma forma simples e resumida os cultos Animistas acreditam que: ”Todas as coisas são vivas”, “ Todas as coisas são conscientes
 Para além deste género de contactos de caracter particular com alguma população, outros haviam que, inseridos em grupos étnicos mais afastadas no relacionamento com as nossas tropas

 ou em zonas controladas pelos guerrilheiros, sentiam uma grande necessidade de apoio e de cuidados de saúde, estando muito dependentes de mezinhas e de outros actos praticados por feiticeiros.
          Os responsáveis militares, atentos ao fenómeno, puseram em prática a campanha que o governador e comandante-chefe general António Spínola ordenara, iniciando junto dessa faixa da população uma acção psicossocial cujo objectivo principal era provocar a conquista pela aproximação às nossas forças.
 A minha experiência e participação neste tipo de acções, resumiu-se na inserção de um grupo que incluía mais três ou quatro camaradas entre eles um oficial e um enfermeiro, devidamente uniformizados com bata branca, que após o contactado com o chefe de tabanca ou com o homem grande (chefe de família) íamos ouvir as principais queixas da população e distribuindo alguns alimentos mais prementes, uns comprimidos LM, (laboratório Militar) que serviam para curar todos os males.
  Para além destes, também eram distribuídos uns comprimidos de vitaminas cuja configuração se parecia com tremoços e que eram exactamente os mesmos que nos eram fornecidos todas as semanas junto com os de quinino que tomávamos para atacar o paludismo ou malária.
 Decorridos alguns dias voltava-mos a visitar as mesmas tabancas a fim de ouvirmos os seus testemunhos e percebermos qual a reacção às nossas anteriores visitas.
        Corpo di bó? Era a pergunta típica que se fazia para saber como se sentiam após a ingestão dos medicamentos.
         Na maioria dos casos as respostas eram bastante positivas porque entretanto a dor de barriga, de cabeça ou da perna, tinha   

 desaparecido, o que na sua opinião confirmava que remédio de branco era bom, tornando-se deste modo mais fácil a aproximação aquela gente, ganhando confiança em nós e viabilizando desta forma a possibilidade de serem devidamente acompanhados pela medicina convencional, através dos nossos serviços.
 Este tipo de acções tiveram para mim um grande significado e foram extremamente gratificantes, porque proporcionaram-me a oportunidade de um modo muito simples e próximo, perceber as reais necessidades daquele povo em questões de saúde e poder ter tido o prazer de contribuir de uma forma muito modesta para a melhoria das suas condições.
 Sobre os cuidados de saúde ministrados às populações, não posso deixar de referir que estes eram sempre prestados com grande competência e extrema dedicação por todos os envolvidos apesar de todas as carências e das deficientes condições de trabalho.
 Casos de extrema urgência e gravidade eram evacuados imediatamente para Bissau por via aérea ou terrestre conforme a gravidade, mas por vezes efectuadas em deficientes condições de segurança.





 A malária, o paludismo e as constantes epidemias de cólera eram das doenças infecciosas que mais preocupavam as autoridades sanitárias e as que mais vítimas provocavam na Guiné em particular junto de crianças e idosos e que não obstante o nosso apoio estavam longe de ser irradiadas.
 As condições sanitárias e os programas de vacinação eram demasiado deficientes e só os militares estavam mais protegidos porque quando saíamos de Portugal já nos tinha sido ministrada a dose completa de vacinas e apesar da ingestão semanal de comprimidos de quinino para combater o paludismo, aconteceram  

situações bem complicadas com alguns dos camaradas.
 Pessoalmente, apenas uma vez tive sintomas do que parecia ser um forte ataque de paludismo que resolvi de uma forma pouco correcta, não servindo esta receita de exemplo a seguir por ninguém, embora no meu caso pelos vistos tivesse sido muito eficiente, reforçando a dose habitual com mais dois comprimidos e um brandy Constantino.
 Nunca falhei a dose semanal que nos era distribuída, ao contrário de alguns que tinham ideias diferentes sobre os reais efeitos secundários dos comprimidos e que não os tomando sofreram bastante no corpo com essa sua atitude.
 Felizmente e ao contrário do que seria previsível pelos antecedentes enquanto mais jovem, não tive problemas de saúde durante a minha permanência na Guiné, e apesar dos imensos erros reconhecidamente cometidos, apenas uma simples dor de dentes fez com que me deslocasse a Teixeira Pinto, para ser assistido por um alferes médico que após um estágio de quinze dias em Bissau, na especialidade de estomatologia, foi enviado para o mato para tratar e arrancar os dentes ao pessoal.
 A consulta foi efectuada ao ar livre debaixo de uma palmeira, sentado numa cadeira muito antiga e muito degradada, daquelas que os barbeiros já não usavam. Após ter aplicado a anestesia, em deficientes condições de apoio e higiene, extraiu-me com alguma dificuldade o dente danificado.
 Apesar de tudo os pós extracção não correu mal, não houve dores nem hemorragias e logo de seguida regressei ao quartel, apenas com a recomendação para bochechar com água morna com sal.
 A água potável na Guiné era um luxo, engarrafada só a Perrier que até era das mais baratas mas ainda assim com um custo um pouco elevado.


































sexta-feira, 11 de maio de 2012

GUINÉ BACHILE-1972-1974 XI






  Não foram raras as vezes que era necessário percorrer alguns metros para que fosse possível juntar bocados de pernas ou de braços dispersos pelo terreno, para que com o auxílio de algodão e ligaduras, criar as condições mínimas para lhes vestir a farda com que iam a sepultar.

Na CCAÇ 16, pontualmente surgiam novos militares, oficiais e sargentos que frequentavam estágios com o objectivo de uma futura promoção ou que vindos de zonas onde a guerrilha passava por uma fase de extrema actividade, vinham terminar os últimos meses da sua comissão nesta companhia.

Em meados deste ano, chega à nossa unidade um furriel de operações especiais vindo do BART6522/72 (batalhão de artilharia) que por ter estado numa zona altamente fustigada por ataques IN, foi ali colocado para recuperar, e cumprir o resto da sua comissão num local um pouco mais tranquilo.

 Curiosamente, quando do primeiro contacto com este novo elemento, achei que não me era completamente estranho, o mesmo sucedendo com ele.

 Após pensar um pouco, rapidamente concluo tratar-se do meu amigo Diogo, um antigo companheiro dos bancos da escola primária que frequentamos no bairro da Pontinha onde ambos residíamos.

 Manifesta alegria por ao fim de tantos anos nos voltarmos a encontrar e naquelas condições a tantos quilómetros das nossas casas.

 Conversámos longamente sobre várias questões, recordámos a nossa escola os nossos amigos e a nossa professora, falando igualmente sobre os nossos diferentes percursos ao longo dos anos em que nunca nos encontramos.





 O meu amigo Diogo, era um jovem extremamente alegre sempre com elevados níveis de moral, bastante extrovertido e permanentemente disponível a qualquer solicitação de um camarada.

 Tinha uma relação muito particular com a guerra e apesar de estar a poucos meses do fim da sua missão extremamente dura até ali, seria normal resguardar-se um pouco, no entanto, nunca se negava a qualquer tarefa por maior perigo que ela representasse.

 Saía para acções no mato quando a isso era obrigado e até voluntariamente quando entendia que era necessária a sua colaboração no apoio aos restantes camaradas.

 Brincava com a guerra chegando a filmar e a fotografar junto à porta da sua caserna, os diversos efeitos e cores provocados pelos disparos de munições tracejantes, que cruzavam e iluminavam o nosso quartel quando dos ataques nocturnos que nos infligiam.

 No entanto e apesar deste espírito a sua passagem pelo Bachile, acabou por não ser feliz, devido ao agravar da situação causado pelo aumento das acções desenroladas naquela região da Guiné.

 Também porque quando numa saída de rotina para o mato com o seu pelotão, seguindo por um trilho devidamente localizado num pequeno mapa da zona para o efeito, a dado momento alguém que ia colocado nos primeiros lugares do grupo constata que o Diogo tem a sua bota colocada em cima de uma das minas por ele instalada alguns dias antes.

 Decorridos alguns segundos de extrema tensão, surge o aviso pela voz embargada de um camarada:

 Diogo tem calma, tens o pé em cima de uma mina, levanta-o mas muito lentamente

 Se normalmente as incursões no mato são feitas em grande silêncio, naquele momento, ele foi de tal forma profundo em todo o grupo, que ficou sem a mínima reacção, completamente bloqueados e sem pinga de sangue.

 

 Desconheço o que teria passado naquele momento pela cabeça de cada camarada que incluía o pelotão.
 Após alguma hesitação momentânea, o Diogo assim procedeu e para grande alívio e espanto de todos a mina não deflagrou.
 Esta situação só foi possível porque estávamos na época das chuvas quando os terrenos estão normalmente bastante húmidos ou mesmo alagados e o percutor accionado pelo pé do Diogo não fez explodir o detonador e por consequência a sua carga base, cujo poder de fragmentação causaria com certeza danos incalculáveis.
 Meses mais tarde, já a poucos dias do final da sua comissão e após ter vivido outras situações igualmente criticas, acabou por falecer, tornando-se a única vítima de uma emboscada contra um Unimog, no momento em que regressava do Cacheu, local onde acompanhado de mais alguns camaradas tinha ido comprar marisco para organizar a sua festa de despedida.
 Foi desta forma e a poucos dias de regressar a casa que faleceu o Diogo, o seu nome passou também a fazer parte da enorme lista de mortos em combate, agora perpetuados com a inscrição num monumento localizado em Belém junto ao forte do Bom Sucesso, que homenageia todos os falecidos em combate nas três frentes da guerrilha.


          No meio desta guerra por vezes tão cruel, alguma coisa se saldava de positivo, a fraternidade que só um combatente entende e que outros jamais perceberão quando da morte de um companheiro jovem que como nós também sonhava e que o deixou de fazer de uma forma abrupta.
 Sentimentos que por mais esforço que alguém possa tentar fazer, só quem esteve envolvido nos diversos cenários os consegue traduzir.
 Já com mais de metade da comissão cumprida o registo na minha agenda apresenta um número de dias para o final inferior aos que já foram superados.
  A forma de estar ao fim de alguns meses neste ambiente altera por completo o nosso comportamento passando a ter atitudes um pouco mais irresponsáveis, desprezando até algum amor pela própria vida, chegando em períodos de maior acalmia, sentir a necessidade de confusão, desejando que surgissem problemas.
 Na ausência de festivais, o comando da companhia organizava simulacros ou alarmes como nós designávamos, de forma a testar a nossa resposta às situações reais.
 Esses simulacros eram totalmente preparados pelo comandante de companhia em rigoroso sigilo e eram accionados pelo disparo de rajadas de G3, efectuadas por este à porta do seu gabinete.
 Estas acções, permitiam testar as diversas reacções do grupo e igualmente treinar ou apurar técnicas de fogo que no meu caso tinham por finalidade afinar a pontaria do morteiro, ensaiando disparos a diferentes pontos de referência, às copas de árvores ou às pontas dos seus ramos.
 Entre os vários ataques e as grandes operações desencadeadas em conjunto com outras forças, também à companhia era devido proceder a algumas saídas de rotina no  


mato para tentar interceptar grupos IN em movimento, controlar as populações a eles afectas ou proceder à colocação de minas em locais estratégicos.
 Na sequência destas acções, frequentemente eram interceptadas junto das bolanhas ou em zonas populacionais controladas pelo IN, mulheres e crianças que depois de resgatadas, eram trazidas de sua livre vontade até ao quartel, onde lhes eram prestados todos os cuidados de saúde e outros face às necessidades.
 Após serem devidamente alimentadas e vestidas, quase sempre pediam para regressar à sua tabanca argumentando quererem ir buscar a mãe o irmão ou o Fiju (filho) que tinham deixado ficar na mata.
 Por mais que soubéssemos das possíveis consequências que daí podiam advir, o pedido tinha quase sempre uma resposta afirmativa.
  Organizava-se a saída de um grupo de homens formando um ou dois pelotões para as acompanhar até um determinado ponto definido pelas NT e próximo da tabanca por elas indicado.
 Depois de algumas horas de espera, na maior parte das vezes esta resultava infrutífera e a missão das NT sem o efeito desejado.
 No regresso ao quartel, as NT além da frustração causada pelo insucesso de mais uma operação de psicossocial, eram quase sempre surpreendidas com uma emboscada, em consequência da informação que entretanto os elementos civis tinham passado aos guerrilheiros.
Igualmente era frequente quando da captura de elementos militares ou civis afectos ao PAIGC, estes não colaborarem prestando qualquer informação útil de forma espontânea, ou mesmo após serem sujeitos a alguma pressão.
 

 Além dos ataques direccionados às instalações do quartel, eram também frequentes as emboscadas às nossas colunas auto que ocorriam com maior incidência nos percursos entre o Bachile e Teixeira Pinto, efectuados a viaturas isoladas e com um reduzido número de elementos.
 Estas acções eram executadas por bigrupos (força IN equivalente a 50/60 homens) em zonas na estrada de curvas bem acentuadas e a sua disposição no terreno em forma de WW, processo considerado bastante eficiente no objectivo de atingir simultaneamente uma coluna em vários pontos.
 Esta disposição no terreno, fazia colocar os elementos das espingardas metralhadoras mais perto da estrada e os portadores de morteiros e R P G, numa posição mais recuada e de apoio às linhas da frente.
 Um princípio de emboscada era por norma assinalado por alguns tiros de costureirinha (pistola metralhadora PPSH-IN), cujo disparo se perceptível pelos nossos elementos, era sinal indicativo para o condutor quase sempre um africano com alguma experiência e conhecedor do terreno retirar rapidamente a viatura da estrada, saindo da zona alvo, para que cada um se protegesse o melhor possível, abrigando-se num buraco ou atrás de um baga-baga, tentando quando possível, retaliar evitando a aproximação do IN.
 As consequências destas emboscadas, dependiam muito da nossa reacção ao efeito surpresa das mesmas e ao número de homens que o IN dispunha no terreno quase sempre superiores aos nossos e que na maioria das vezes só mesmo por falta de organização dos guerrilheiros e muita sorte do nosso lado, as consequências não foram outras.
 Numa das emboscadas em que estive directamente envolvido, e que considero ter sido a mais difícil de superar, tínhamos saído do Bachile por volta das 4,30 da manhã e transportava-mos além dos nossos militares, alguns civis 

  entre eles mulheres que como habitualmente transportavam consigo os mais diversos objectos para além de uma diversidade de animais entre galinhas, leitões e outros.
 A determinado momento, com metade do percurso decorrido fomos surpreendidos com uma acção do IN, a rápida intervenção do condutor bem experiente nestas situações, levou a viatura uma Berliet, para fora da estrada e do angulo de visão directa dos guerrilheiros.
 De pronto cada elemento saltou da viatura procurando um abrigo, lembro-me que não sei muito bem como, consegui proteger-me acompanhado da minha metralhadora G3 num buraco provavelmente provocado por uma granada de obus mas já parcialmente coberto de capim.
 Aí aguardei durante alguns minutos o desenrolar dos acontecimentos sem qualquer tipo de reacção que de todo não era conveniente naquele momento.
          Recordo-me que depois do primeiro impacto causado pelo fogo IN, só ouvia bem perto de mim os gritos inconvenientes das mulheres, que naquela situação não era o mais aconselhável.
         Estive perfeitamente consciente do perigo que corri naquele momento, sei que os turras andaram ali bem perto do local onde me refugiei, sabia que qualquer atitude menos pensada, me sujeitava a ser apanhado à mão, penso que nesse momento quase não respirei para não ser detectado, passando cerca de três horas escondido naquele buraco tentando controlar a situação, à espera de reforços que era suposto virem rapidamente da minha companhia ou de uma unidade de Teixeira Pinto.
 O sucedido já era do conhecimento de ambas as unidades porque naturalmente o destacamento da Ponte Alferes Nunes,  
situado a meio caminho entre elas, já teria com certeza comunicado, mas se por um lado não era muito lógico nem aconselhável desguarnecer a C CAÇ-16 por razões óbvias, por outro era muito complicado o comandante da CAOP tenente-coronel Rafael Durão, permitir a saída de alguém para o efeito.







 Deste modo só após decorridas mais de três horas bem escondido, comecei a ouvir vozes que me pareciam familiares a chamar pelos nossos nomes no entanto, só depois de me certificar de que quem gritava por mim era efectivamente uma voz que eu reconhecia, é que saí do buraco onde por vezes para não ser detectado me imobilizei por completo.
         Entretanto esta emboscada só não causou vítimas porque o grupo IN também não arriscou muito, provavelmente receando que o nosso apoio chegasse rapidamente, porque se têm arriscado mais, seguramente tinham provocado bastantes estragos.
 Era por esta mesma estrada que muitas vezes meia dúzia de brancos mal armados iam buscar correio, um bidon de ostras, pescar à granada ou cortar lenha para o forno e fogão, facilitando demasiado perante a situação, apesar de nunca terem surgido complicações de maior nestas saídas voluntárias, reconheço que de um modo geral, fomos bem protegidos pela sorte.
 Ainda no que à sorte diz respeito, não quero deixar de referir o que nos sucedeu que me recorde pelo menos por duas vezes.
 Os soldados africanos da companhia, porque não viam satisfeitas algumas das suas constantes reivindicações, abandonaram na totalidade o quartel ao princípio da noite em direcção a Teixeira Pinto, deixando à mercê de um assalto pelos guerrilheiros, vinte e oito homens que seriam facilmente anuláveis.
 A sequência dos mais diversos incidentes e os danos físicos causados, provocavam um permanente desgaste psicológico que 

causavam efeitos diferentes em cada elemento.
         Presenciei na mesma pessoa comportamentos tão diversos em situações semelhantes, num curto espaço de vinte e quatro horas.
 Pessoalmente também reagi de forma diferente às mais variadas situações que vivi e presenciei.
         Concluí que em determinados momentos da nossa vida somos capazes de ir buscar forças físicas e psicológicas onde pensamos já não ser possível existir, observei reacções e atitudes de muitos camaradas, que nem os próprios acreditavam serem capazes de as cometer o que vem evidenciar que o ser humano é dotado de faculdades que lhe permite reagir de forma que nem o próprio pensa ser possível.
         Os momentos mais difíceis e menos agradáveis, também nos deram em meu entender, algo de muito positivo pelas vivências e experiências que nos proporcionaram.
         Era nas grandes dificuldades e nos momentos mais complicados que se evidenciavam os extraordinários valores humanos que permanentemente eram colocados ao serviço dos outros.
 Depois surgiam outros momentos de maior descontracção e convívio que funcionavam como uma forma de superar e esquecer os mais negativos.
 A noite era aproveitada para umas patuscadas, uns jogos de matraquilhos, uma sessão de cartas, ou para ouvir os êxitos do momento através dos programas de discos pedidos pelos militares através dos úteis e simpáticos aerogramas e que passavam na única estação de rádio local situada em Nhacra.
 Frequentes eram também as conversas entre os camaradas com quem mais nos identificávamos, nelas eram abordados assuntos dos mais diversos ou temas de ordem geral e pessoal.