sábado, 22 de outubro de 2016


PONTE VASCO DA GAMA



Final do verão, é tempo de activar as entradas deste importante canal de comunicação, cujas  páginas  serão  alimentadas de ideias simples,mensagens mais curtas ou longas  num tom  informal e sem pretenções, ou ainda com fotos e vídeos que ajudem a viajar.
Momentos que considere importantes  servirão  para partilhar a minha opinião e a minha visão sobre  os mais variados temas.
Lisboa, a minha cidade  da qual  quero e  estou a  usufruir cada vez mais, será um tema  predominante  que irei postar.
Até já
Lisboa vista por mim.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

CONVÍVIO C CAÇ 16

Mais um ano e mais um reencontro entre camaradas que cumpriram missão na Guiné, nomeadamente no Bachile C CAÇ 16. Reencontro de alguns que não se encontravam á cerca de quarenta anos altura em que eramos uns jovens algo inconscientes atirados param uma guerra até hoje mal entendida pelas novas gerações e classes politica. Ainda hoje, para alguns políticos torna-se algo incómodo a expressão ex combatentes e num passado não muito longe, até os convívios eram realizados quase em segredo. Fazemos parte de uma geração que serviu a pátria, mas a pátria abandonou nos, muitos ficaram traumatizados fisicamente, mas haverá outros e provavelmente em maior número com uma doença chamada stress pós traumático de guerra. Portugal é o país que mais mal trata os seus ex combatentes, mas o poder r politico não tem interesse em resolver a questão, ao contrário de outros países que também tiveram militares em ex colónias. Por isso festejemos a oportunidade de pelo menos uma vez por ano, nos juntarmos, confraternizando e revivendo um período extremamente importante das nossas vidas. Um abraço



domingo, 14 de outubro de 2012

Porquê?


Segundo os últimos estudos apresentados pela União Europeia, Portugal é o segundo país onde mais horas se trabalham por semana.

Em contrapartida e segundo o mesmo estudo, o nosso país é o terceiro menos produtivo do grupo.

É de salientar igualmente que o Luxemburgo onde trabalham um número extremamente significativo de portugueses está colocado nos primeiros lugares em termos de produtividade.

Já não é de agora, mas ao ouvir os resultados deste estudo fez-me questiona-me sobre as causas de tais resultados.

Em meu entender, não se pode imputar a falta de produtividade aos trabalhadores, mas muito provavelmente á má gestão de grande parte das nossas empresas e á falta de abertura dos que estão agarrados aos lugares preponderantes das respectivas empresas, não permitindo que jovens técnicos credenciados assumam as responsabilidades.

Depois é vê-los com carreiras de sucesso, serem reconhecidos, em empresas de renome mundial.

            Porquê?  

 

domingo, 20 de maio de 2012

Batista Russo






Ontem vivi um dia muito especial, um dia em que se reuniram num almoço de confratenização, mais de cento e vinte ex trabalhadores desta empresa que transmitiu ao longo dos anos a cada um de nós, valores essenciais para que fossemos cada vez melhores quer no ambito profissional, quer socialmente.
Foram sem dúvida valores que reconheço terem sido muito importantes na minha maneira de estar na vida.
Entrei nesta empresa que já na época era uma referência com 14 anos, foi lá que me formei como homem e como profissional, foi lá que vivi alguns dos melhores momentos da minha vida.
Ainda hoje é única e esta  afirmação ficou demonstrada ontem quando  reencontrei colegas e amigos, alguns dos quais não via há mais devinte e cinco anos.
Foi a minha primeira vez nesta confratenização. A do próximo ano onde esperamos ultrapassar este número de presenças, já está agendada e com o empenho de um pequeno grupo, com a colaboração de todos e a influência benéfica das redes sociais, será certamente mais um êxito.
Um grande abraço a todos os que tiveram presentes, a todos os que não puderam estar e a recordação de todos os que já não estão entre nós.

sábado, 12 de maio de 2012

GUINÉ BACHILE-1972-1974 XIV




 Pensava eu estar tudo em ordem para que o comandante de companhia autorizasse e assinasse o documento, quando este se lembra que antes era necessário fazer um balanço ao material da arrecadação, conferindo as existências com as saídas registadas no respectivo caderno.

 Fui surpreendido por esta atitude porque tinha por hábito deixar trazer a quem terminava a comissão um cantil, um cinturão ou uma faca de mato como recordação da sua passagem pela guerra, sem nunca pensar no que isso iria resultar, após a conferência verificou-se uma diferença para menos de aproximadamente vinte e oito peças.

 Mais uma vez e seguindo o velho lema que na tropa há que desenrascar e contando também com alguma cumplicidade do sargento Guerreiro, resolvi a situação carregando no caderno mais uma peça nalguns dos nomes de soldados africanos operacionais que por força da sua missão em combate, seria mais fácil justificar a perca de algum desses objectos.

 Finalmente tudo estava em ordem e pode começar com a colaboração de outros camaradas, a organização da minha festa de despedida do Bachile que se realizou dois ou três dias antes da minha ida para Bissau.

 Não faltou nada, nem a já tradicional cabra de mato assada no forno, a caldeirada de gazela, o javali e muito marisco cozido e grelhado, tudo bem regado por cerveja e vinho verde Casal Garcia.

 Foi como seria de esperar, a oportunidade para mais uma excelente demonstração de pura amizade e camaradagem.

 Também várias vezes tinha sido desafiado a acompanhar um grupo de furriéis africanos que confeccionavam pontualmente uma caldeirada de macaco, que apesar de todos os elogios que ouvia referentes aquele manjar, consegui sempre resistir porque se o aspecto e o cheiro convidavam, a forma como era apresentado com as patas expostas nos topos da travessa fazia com que recuasse nas minhas intenções.

 Até que, depois de tanta insistência, não quis perder esta última oportunidade e acabei por não resistir sentando-me à mesa com os camaradas, saboreando uma estupenda caldeirada de macaco, confeccionada com aquele toque culinário que só os africanos sabem dar.

 Depois de feitas as malas, a 4 de Março de 1974 foi-me entregue a guia de marcha com a indicação para me apresentar no dia seguinte em Bissau no DA/CTIG (Depósito de Adidos/ Comando Territorial Independente da Guiné) para aguardar transporte.

 O dia da partida do Bachile foi vivido com grande intensidade, morava em mim um sentimento mesclado entre uma enorme alegria por estar iminente o meu regresso a casa, com um outro de saudade (mantenhas) pelos bons momentos vividos durante cerca de dois anos, juntamente com um grupo de seres humanos extraordinários com os quais partilhei excelentes momentos a par de outros muito mais difíceis e complicados, resultando numa enorme experiência de vida.


 Nem todo o efectivo de militares africanos tinha conhecimento do fim da minha comissão, mas alguns que souberam tiveram nesse dia atitudes que me surpreenderam muito pela positiva e até me emocionaram, mesmo aqueles com os quais não mantinha o melhor relacionamento.
 A despedida do Augusto Martins Caboiana, também representou para mim um momento de grande significado, não só pela grande afectividade que nos unia, mas também pela incerteza quanto ao seu futuro, igualmente a imagem que guardo de todos os meus camaradas no momento da despedida, é extremamente significativa, emoção renovada sempre que uns partiam e outros ficavam.
  Neste dia o sargento Guerreiro teve o cuidado de preparar uma caixa com alguns produtos hortícolas criados no nosso quintal, para que quando chegasse aos adidos fossem entregues ao sargento responsável pela secretaria de forma a me dispensar de formaturas e serviços enquanto estivesse em Bissau.
 Quando já estou sentado na viatura que me iria transportar pela última vez do Bachile para Teixeira Pinto, surge novamente o sargento Guerreiro, desta vez para me dar mais um abraço e entregar-me um envelope com dez mil escudos para eu gastar enquanto estivesse em Bissau.
         De todas as colunas em que participei, esta foi sem dúvida para mim a mais difícil, não porque tenha havido algum problema mas por estar sempre presente a possibilidade de poder suceder algo, acrescentando o facto de esta ter sido efectuada 

 sem arma de defesa já anteriormente entregue no quartel com o restante espólio.
 Assim que cheguei a Brá ao quartel dos adidos, apresentei-me ao responsável pela secretaria com uma recomendação da parte do sargento Guerreiro, entregando-lhe a caixa recheada de alfaces, tomates e pepinos. Este, percebendo a mensagem depois de registar a minha chegada informou-me que estaria isento de serviços e formaturas, mas que estivesse atento à lista que diariamente era afixada na companhia de transportes.
 Entretanto o meu camarada 1º cabo mecânico Pereira, tinha efectuado um contacto com um furriel do regimento de transportes seu conterrâneo, no sentido de quando fosse possível tentar uma vaga num dos voos mais próximos.
 Nos adidos, lá arranjei uma cama onde dormir e encontrei onde guardar de uma forma segura a minha mala com roupa e outros objectos pessoais.
 Da farda militar apenas possuía o que tinha vestido, lavava a camisa e esperava que secasse para a vestir de seguida, depois sucedia o mesmo com as calças que para ficarem minimamente apresentáveis, eram antes de estarem demasiado secas, vincadas com um pente de alumínio que lhes davam um aspecto de terem sido bem engomadas.
 Acordava normalmente muito cedo e depois da higiene matinal e de um bom pequeno-almoço na cantina do quartel, fazia-me à estrada em direcção à cidade, umas vezes em transportes públicos, outras a pé ou à boleia numa qualquer viatura militar.
 Nesta época o típico transporte público na Guiné era assegurado pelos Toca – Toca (transporte colectivo em carrinhas tipo Hiace) apesar de também já existirem alguns autocarros pertencentes a uma empresa de transportes portuguesa


 Foram onze dias vividos em Bissau de uma forma bastante intensa mesmo quase no limite, como não fazia parte da escala de serviços nem tinha horários a cumprir, vagueava todo o dia pela cidade, tentando passar o tempo da melhor forma possível, porque os dez mil escudos trazidos do Bachile, eram naquele tempo muito dinheiro.
 Parava aqui e acolá evitando apenas meter-me onde pudesse surgir grandes confusões que nesta altura eram bastante frequentes na cidade, provocados por alguns bombardeamentos ou rebentamentos que chegaram a atingir locais de maior aglomeração como à saída do cinema UDIB.
 Também evitava parar em locais onde alguns dos militares cujas companhias terminada que estava a sua comissão, aguardavam o embarque para a metrópole, não sem, provocarem confusões nas esplanadas das principais cervejarias situadas na avenida principal de Bissau.
 De manhã parava em duas ou três casas para petiscar qualquer coisa, ou fazia uma visita ao mercado de Bandim, adquirindo algum objecto de última hora para trazer como recordação de forma a responder a algumas solicitações.
  Entretanto chegava a hora de almoço que aproveitando o dinheiro trazido do Bachile, fazia-o nos melhores restaurantes da cidade, sim porque no mato a malta comia qualquer coisa, mas na cidade e com dinheiro no bolso armamo-nos em finos.
 Depois, uma ida até há esplanada do café Bento, (5º repartição) para engraxar os sapatos ou ler os jornais desportivos que tinham acabado de chegar no avião da TAP e manter dois dedos de conversa com o pessoal que por ali parava vindo dos mais diversos pontos da Guiné.

 Entretanto chegava a hora do lanche e mais umas quantas paragens pelas cervejarias até ao jantar que podia ser em qualquer dos vários restaurantes existentes na cidade ou em alternativa mais uma vez na Base Aérea de Bissalanca, onde se encontrava em serviço o meu amigo Mário Pascoalinho.
  À cidade chegava o eco dos últimos acontecimentos no interior e nos dias de coluna lá estava eu a aguardar a viatura do Bachile para saber as novidades mais recentes.
 Entretanto quase todos os dias deslocava-me à companhia de transportes para consultar a lista do pessoal escalado para o próximo voo, embora muitas vezes alterada à última hora em consequência da intensidade de acontecimentos ocorridos no mato.
 Foi assim até ao dia 15 de Março, em que depois de mais uma ida à companhia de transportes, verifiquei que o meu nome não fazia ainda parte da lista.
 Resolvi extraordinariamente dar uma volta mais demorada pela noite de Bissau, quando já bem depois da uma hora da manhã, sou confrontado com a notícia de que um militar do quartel dos adidos, andava num jipe pela cidade à minha procura para que efectuasse as análises clinicas obrigatórias sem as quais não podia regressar à metrópole, porque afinal, resultante de uma alteração de última hora, o meu nome estava na lista e tinha voo marcado para o dia seguinte.
 Achei tudo muito estranho, porque horas antes não tinha essa confirmação, por isso no regresso ao quartel de adidos passámos pela companhia de transportes e verificámos que efectivamente a mesma tinha sido alterada e lá estava o meu nome em penúltimo lugar de uma lista de mais de cento e cinquenta elementos.
 Rapidamente e porque já era demasiada tarde, tentei organizar em definitivo, tudo o que já tinha minimamente preparado.
          De seguida, fiz os procedimentos necessários e as análises para poder obter os resultados de forma a poder estar por volta do meio-dia no aeroporto para eventualmente seguir viagem para Lisboa.
 Chegado ao aeroporto, vivi mais alguns momentos de ansiedade, na sala de embarque o ambiente estava bastante agitado porque nas últimas horas, tinha-se agravado a situação no interior do território, provocando uma constante chegada de helicópteros transportando vítimas com destino ao Hospital Militar, ou nos casos mais graves evacuados para Lisboa.
 Com o número de feridos a necessitar de evacuação a aumentar, começaram a ser eliminados os últimos nomes da lista de embarque, iniciando-se este processo, pelos elementos na situação de reserva e posteriormente pelos efectivos.
 Por pouco, não conseguia lugar neste voo porque, depois de eliminados alguns elementos, estava na eminência de não embarcar naquele dia caso nos próximos momentos aparecesse mais alguma vítima grave.
 Só por volta das quinze horas se deu início à viagem, a bordo de um Boeing da FAP, completamente lotado por militares cuja comissão tinha terminado e que não disfarçavam a alegria daquele momento, se bem que naquele mesmo avião vinham alguns camaradas em situação muito crítica, acontecendo mesmo o pior durante a viagem a dois elementos que se encontravam em situação mais crítica.
 Fizemos uma escala técnica na Ilha do Sal em Cabo Verde, o bar do aeroporto foi o local para extravasar uma alegria indiscritível, já ninguém conseguia segurar aquele grupo de homens que estavam a poucas horas de regressar a casa.
 Na pausa que efectuámos de menos de uma hora, gastei os últimos pesos que me restavam.
 Depois seguimos em direcção a Lisboa e a euforia aumentava consoante nos aproximávamos do nosso destino.







 
 A viagem estava a decorrer com normalidade mas, com a aproximação a Lisboa, começa a ser perceptível que algo se passa, recordo-me que a primeira informação que nos foi prestada pelos elementos da tripulação, foi a de que tinha acontecido um acidente do qual ainda não havia muitos pormenores e que tal facto implicaria um considerável atraso na aterragem em Lisboa. 
 Não foi muito convincente aquela informação e poucos minutos depois verificamos que o avião sobrevoa a cidade, fazendo algumas tentativas para aterrar sem resultado.
 Esta situação começou a deixar-nos preocupados, estávamos no fim de um dia 16 de Março, que se apresentava muito cinzento e com temperaturas relativamente baixas.
 Finalmente, após longos e intrigantes minutos de indecisão com a aeronave sobrevoando Lisboa, o aparelho coloca as rodas na pista e imobiliza-se na zona militar de Figo Maduro.
 Antes de nos ser dada autorização para sair foram-nos prestadas rigorosas indicações em como proceder logo que estivesse-mos fora do avião.
 Ao abrir das portas deparamo-nos com um enorme aparato bélico, militares armados faziam protecção a várias zonas do aeroporto militar e em redor da aeronave. Mais adiante, um oficial do exército substitui as guias por outras, indicava-nos que fosse-mos no dia seguinte ao quartel de adidos na Calçada da Ajuda, concluir o processo de desmobilização.
 Depois de tanta perturbação que mais fazia lembrar termos saído de uma guerra para entrámos noutra, foi finalmente possível saber a verdade sobre o que realmente estava a acontecer, junto dos familiares que amigos que aguardavam os militares.
 O quartel RAL 1 (Regimento Artilharia Ligeira) na Encarnação apresentava junto à porta de armas um aparato fora do comum, também nas principais vias de acesso à auto-estrada, estavam barricadas algumas viaturas militares blindadas e era notória muita tensão nas pessoas com quem me cruzei.
 
O que tinha acontecido efectivamente, foi uma primeira tentativa de golpe militar contra o regime, no entanto abortada porque só o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha tinha marchado sobre Lisboa, falhando o golpe que resultou na detenção de cerca de duzentos militares.
 Este movimento era uma reacção pronta à exoneração de Spínola e de Costa Gomes que não se tinham mostrado solidários com o regime, numa reunião que ficou conhecida por “brigada do reumático” realizada dois dias antes entre Marcelo Caetano e os oficiais leais ao governo.
 Cheguei finalmente a casa, já a noite ia alta e logo à entrada constato que o estado de saúde do meu pai se tinha agravado consideravelmente.
 No dia seguinte, desloquei-me ao quartel de adidos na Calçada da Ajuda, entregando o que restava da farda militar, recebendo em troca uma guia que substituía a respectiva caderneta a ser entregue posteriormente, terminando desta forma a minha missão como militar.
 Chegados à metrópole, éramos completamente despejados e entregues a nós próprios, não nos era facultado qualquer apoio necessário à integração de quem esteve ausente nalguns casos mais de dois anos, num meio completamente diferente, hostil e sobre uma pressão contínua.
 Penso que uma recepção condigna implicava no mínimo algum apoio médico após a chegada, com a realização de exames clínicos adequados.
 Meses mais tarde, recebi um aerograma informativo do local onde me dirigir caso necessita-se de apoio se viesse a verifica-se haver sintomas de doença parasitária ou paludismo.
 
 Andar em Lisboa nos primeiros dias e no meio de tanta confusão foi complicado, sentia-me completamente confuso e deslocado, a adaptação ainda demorou alguns dias até atingir alguma normalidade.
 Como a vida não estava para tempo de vacas gordas e porque era necessário contribuir para o fraco rendimento familiar, poucos dias após retomei a minha actividade profissional
 Quando regressamos de uma experiência destas, à seguramente uma perda de inocência, nenhum de nós foi para a guerra e voltou impunemente igual.
 Os nossos amigos e familiares deram conta disso. Já não éramos os mesmos, nunca mais fomos os mesmos.
 Muitos milhares de jovens do meu tempo baldaram-se à guerra, recusaram-na.
 A maioria deu o salto para França, antes de serem enfiados
dentro de algum navio ou de um avião. Outros já em cenário de guerra desertaram e abrigaram-se nas forças do PAIGC.
 Fui empurrado para uma guerra por obrigação mas absolutamente contrariado, não pretendo criticar quem a fez com convicção, nem quem escolheu outros caminhos, mesmo os que optaram pela sua recusa porque, o meu modelo de vida e os meus valores servem muito bem a minha consciência.
 Fiz quase dois anos de comissão, cheios de riscos, privações e sacrifícios, mas não atiro pedras a ninguém, assim como não aceito que se atrevam a atira-las a mim, não querendo sequer pensar que este sentimento seja partilhado por todos.
 Naturalmente que os excessos fizeram também parte da nossa passagem por África, pessoalmente e sem ter sido nenhum santo, garanto que só no contexto do factor guerra é que eventualmente poderei ter cometido algum acto mais reprovável.
 



 Que o exército chamado colonial cometeu crimes é verdade, testemunhei alguns actos que não fez, nem faz de todos nós, violadores, torturadores, ou massacradores.
 Inerentes ao colonialismo e ao sistema em vigor, foram a violência, a opressão e a injustiça.
 Estávamos numa guerra onde ninguém pediu para ir, e a intenção era matar para não morrer.
 Assim de ambos os lados tornou-se inevitável não haver mortos ou feridos em combate.
 Felizes aqueles camaradas que nunca estiveram envolvidos em acções de combate e por isso não sabem quanto traumatizante é viverem várias vezes essa situação.
 Passados mais de trinta anos sobre o processo da descolonizarão, o país começa, finalmente a encarar os efeitos que a guerra causou sobre uma geração de jovens.
 Muitos ficaram com marcas para sempre porque não há guerras limpas.
Não acredito em guerras sem injustiças e sem atrocidades, porque não se faz a guerra sem matar.
 Muitos de nós, jovens com pouco mais de vinte anos os “meninos das suas mães” que não foram educados para o mal, vivem ainda de alguma forma prisioneiros dos seus pesadelos provocados pelo stress que corrói vidas.
 Ao longo do tempo, mas sobretudo depois do final da guerra, houve por parte do poder político uma tentativa de fazer esquecer o que a mesma tinha representado.
 Houve uma tentativa de confundir colonialismo com o dever pátrio, sentiam a necessidade de fazer esquecer a intervenção querendo misturar tudo no mesmo saco, desvirtuando o papel dos jovens portugueses chamados à força para defender uma parcela de terreno que ao longo da vida, nos  tinham ensinado ser nossa

 Deste modo, durante alguns anos, conseguiram ainda confundir uma boa parcela da opinião pública.
         Ao contrário do que muita gente tentou demonstrar, não fomos só o produto de uma geração colonialista, fomos sim também uma geração excelente porque cumprimos exactamente o que nos tinha sido ordenado.
 Cumprimo-lo de tal forma que, estou convicto de que muito provavelmente, nenhum outro povo mesmo de países mais desenvolvidos seria capaz de o ter feito tão bem naquelas condições.
  Nós resistimos ao terror, à falta de comida, à falta de formação conveniente e a muitas outras carências e situações, perante uma força hostil que estando no seu próprio território, conhecia-o como ninguém e apresentava-se muito melhor equipado.
Também aqui reservo um espaço onde pretendo demonstrar um enorme carinho e amizade pelo povo da Guiné que apesar de ter ganho a guerra, creio que passados tantos anos não ter ainda conseguido ganhar a paz.
Relatos recentes de antigos camaradas que têm tido oportunidade de visitar a Guiné, são testemunho real de quanta ainda aquela gente nos admira e estima.
Não vou certamente esquecer tão depressa a profusão de sentimentos, odores e de cores que tornavam cada deslocação numa viagem de prazer único para quem como eu ama a natureza.



Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi”







Não posso terminar esta transcrição da minha passagem pela Guiné, sem prestar uma simples homenagem aqueles com quem privei de perto e viram as suas vidas terminadas de uma forma precoce.
Por isso, incluo neste trabalho uma lista com o registo dos nomes de alguns camaradas da minha unidade, que desapareceram antes ou após ter terminado a minha comissão, com particular significado para o meu amigo de infância: Diogo Conceição Salgueiro.



Nome
Batalhão/Companhia
Data Falec.
MALAN CANDÉ
CCaç 16
21-08-1973
UPA GOMES
CCaç 16
01-04-1972
ARNALDO DO NASCIMENTO CARNEIRO CARVALHO
CCaç 16
22-04-1974
ALBINO GOMES DA COSTA
CCaç 16
22-04-1974
PAULO CAIESTA TUI MENDES
CCaç 16
22-04-1974
AZEVEDO GOMES
CCaç 16
30-10-1973
AMBRÓSIO CAPAMBU INJAI
CCaç 16
22-04-1974
CARLOS GOMES
CCaç 16
22-04-1974
JOÃOZINHO DA SILVA
CCaç 16
07-06-1974
JOSÉ PINTO ALVES
CCaç 16
10-08-1974
MARCELINO FORMOSO CATENDI MENDES
CCaç 16
19-03-1972
PAULO MENDES
CCaç 16
01-07-1973
POLICARPO AUGUSTO GOMES
CCaç 16
22-04-1974
SAMPER GOMES
CCaç 16
22-04-1974
VICENTE RODRIGUES
CCaç 16
22-04-1974
LUÍS DA COSTA
CCaç 16
22-04-1974
PAULO DA VEIGA
CCaç 16
29-09-1972
NULASSO ALBINO GOMES
CCaç 16
22-04-1974
DIOGO CONCEIÇÃO SALGUEIRO
BArt 6522/72
25-07-1974











         Após o 25 de Abril de 1974, iniciam-se as negociações para um cessar-fogo que só vem a concretizar-se em Junho, reconhecendo Portugal, a independência da Guiné em Agosto do mesmo ano.








BIBLIOGRAFIA








Luís Graça— Subsídios para a história da guerra colonial


Guiné-Bissau-- -No contexto dos países de língua
                           Portuguesa— Roberto Pontes


Wikipédia – A enciclopédia livre


Centro de documentação 25 de Abril – Universidade de     
                                                                 Coimbra

Mitoseritos---- Memórias da guerra-Bachile-Guiné