sexta-feira, 4 de maio de 2012

GUINÉ BACHILE 1972-1974 III




Naquele momento, estava preparado para tudo, porque naturalmente ainda reinava alguma confusão na minha cabeça, motivada por uma tão brusca mudança e porque não se perspectivar outras alternativas, respondi afirmativamente à sugestão apresentada pelo sargento Guerreiro que de pronto, usando a sua influência na companhia, propôs ao comandante a

aprovação para o desemprenho das minhas funções, que este aceitou sem reservas, o que veio a verificar-se ter sido extremamente importante e muito benéfico para o resto da minha comissão, considerando algumas vantagens que usufruí no desempenho das minhas funções e do óptimo relacionamento pessoal com o 2º sargento Guerreiro.

Segue-se a apresentação aos restantes camaradas e superiores hierárquicos, tomando simultaneamente conhecimento mais pormenorizado do funcionamento da estrutura militar.

Foi-me ainda oferecida a possibilidade de poder dispor de alguma privacidade, se opta-se por ficar instalado na arrecadação de material e fardamento, utilizando-a como quarto particular, ideia que prontamente rejeitei, porque para além daquele espaço servir para armazenar equipamento vário e fardamento servia igualmente para armazenar várias granadas e outro tipo de munições transformando aquele espaço num autêntico paiol ou barril de pólvora.

Montada a cama de tubos de ferro tipo beliche com a colaboração do camarada Miranda, 1º cabo operador de crepito, natural de Queluz e com o qual ainda hoje mantenho algum contacto, na caserna partilhada por mais dez camaradas, houve que preparar a aplicação da indispensável rede mosquiteira, condição essencial para garantir uma noite mais ou menos

tranquila, porque estas paragens são o habitat ideal e natural de milhões de mosquitos espalhados por todo o lado em busca de alimento, em que o seu prato favorito é o sangue humano.

Os ataques de enormes exames de bageras (abelhas) são também muito frequentes e perigosos nesta zona do território e bastante temidos até pelos africanos.

Depois fui arrumar alguns objectos pessoais num caixote de madeira disposto na vertical ao lado da minha cama e que funcionava como armário e mesa-de-cabeceira, forrado com pósteres de vedetas de cinema daquele tempo como, Marilyn Monroe ou Brigitte Bardot.

 Neste primeiro dia de Bachile, livrei-me da tradicional praxe normalmente reservada aos periquitos, que só não aconteceu por não ter sido prevista nem previamente anunciada a minha chegada efectiva e também por não estar presente quem eu ia substituir.

A companhia designada por CCAÇ16, não estava integrada em nenhum batalhão, tratava-se de uma companhia indígena de quadros metropolitanos, de rendição individual e de militares do recrutamento local, composta por cerca de 180 homens, na sua maioria operacionais de diferentes etnias onde se incluíam os Manjacos, os Fulas e os Futa Fulas, (etnia guineense que apresenta a particularidade de terem a face marcada por uma dupla incisão vertical) e ainda os Balantas e os Papéis.

Da totalidade dos militares só cerca de 30 eram portugueses incluindo oficiais, sargentos e praças que garantiam não só toda a logística da companhia, como a preparação e organização operacional da mesma.


O facto de se tratar de um conjunto de militares de rendição individual, cujo inicio e fim da comissão não eram coincidentes, criava um espírito de camaradagem algo diferente daquele que era vivido entre os que chegavam inseridos em companhias ou batalhões formados em Portugal, acrescido o facto de sermos em número mais reduzido, proporcionava uma maior e mais forte aproximação, camaradagem e solidariedade entre todos.

Como atrás referi, o quartel estava situado em pleno mato, numa posição algo estratégica para as NT (nossas tropas) e avançada em relação a outras nossas posições na zona.

Situava-se a uma distância de sensivelmente 5km em linha recta de um dos principais centros operacionais do IN (inimigo, turra, guerrilheiros ou população sobre seu controle, expressão meramente de referência, sem o significado profundo contido nas palavras) a misteriosa mata da Caboiana, (mata onde se sabia existir um quartel general das forças IN) estando a nossa posição situada num ponto relativamente alto onde as casernas e outros edifícios pintados de branco se tornavam num alvo privilegiado em noites de luar, para os ataques junto ao arame dos Turras (outra designação de terrorista, guerrilheiro, combatente do PAIGC).






Os guerrilheiros chamavam-nos Tugas, pensando tratar-se de um nome altamente depreciativo mas que somente queria dizer branco.

O espaço envolvente ao aquartelamento era cercado por uma área dupla de arame farpado contínua onde estavam colocados diversos holofotes e interrompido apenas por dois pilares assinalando a entrada do quartel.

Entre arames e num espaço muito bem capinado, eram montados para defesa do pessoal e do quartel, fornilhos (armadilha com cordão detonante), com algumas garrafas vazias de cerveja atadas aos pares pelo gargalo, que ao mais pequeno estremeção emitiam um som avisando a aproximação do IN, assim como vários postos de observação e defesa em todo o seu perímetro equipados com armas ligeiras, tipo metralhadoras HK e Breda, morteiros 60mm e 81mm e os obuses 10,5mm e 14mm.






À entrada do lado esquerdo junto a uma árvore centenária de grande porte e de grande simbolismo para os africanos, daquele chão, situava-se o posto de enfermagem onde o camarada Pinto, “o pastilhas” (cabo enfermeiro), desempenhava as suas funções seguindo-se o espaço destinado à sala do soldado e logo ao lado o refeitório.

Depois uma área destinada à oficina de manutenção das viaturas da companhia e ao motor gerador que fornecia a luz ao quartel, tarefa a cargo do camarada Pereira, o 1º cabo ferrugem (mecânico auto) natural de Amares, Braga.

 Ligeiramente mais afastado e na retaguarda deste, existia um paiol que armazenava a maioria das embalagens das diversas munições e explosivos.

Mais adiante um forno em pedra onde para além de cozer o pão que alimentava toda a companhia, era também utilizado para cozinhar-mos alguns dos nossos melhores petiscos.

Depois e de frente para a entrada da unidade, situava-se o depósito de géneros, da responsabilidade do vago mestre, furriel Guimarães, natural de Lisboa, que geria a distribuição dos géneros alimentares da companhia e cuja importância para a realização dos nossos petiscos era fundamental como fornecedor dos diversos ingredientes necessários à concretização dos mesmos.

 Logo ao lado a cozinha que estava a cargo do 1º cabo Joaquim, natural do Redondo, Alentejo, onde se confeccionava a fogão de lenha as refeições diárias e os excelentes petiscos saboreados por todo o pessoal metropolitano, incluindo oficiais, sargentos e praças.




Prosseguindo a descrição do aquartelamento e agora já noutro sentido e de frente para o refeitório, situava-se um edifício onde estava inserido um gabinete que servia para a realização de algumas reuniões de âmbito mais privado ou mesmo de sala de audiências na resolução de situações disciplinares graves e que serviu ainda para a montagem improvisada de um laboratório fotográfico.

Ainda neste edifício funcionava o bar e o refeitório dos oficiais e logo ao lado a arrecadação de armamento e fardamento, a minha “oficina”.

Nas traseiras deste espaço ficava o bar e o refeitório dos sargentos., o meu “part time”, depois o edifício onde se situava o gabinete do comandante de companhia, a secretaria e a caserna dos oficiais, ficando do lado oposto a sala de transmissões.

Nas proximidades deste edifício e de frente para a parada, estava colocado o mastro onde era hasteada a Bandeira Nacional, juntamente com uma lápide contendo a seguinte inscrição.


 (Por uma Pátria una e indivisível, a companhia Manjaca, fica defendendo o chão da cobiça de estranhos, ainda que tenha de derramar o seu sangue).

Por detrás do edifício do comando, situavam-se as casernas das praças e dos sargentos e depois o depósito de água que estava instalado entre estas e as casernas dos operacionais africanos, seguindo-se os balneários do pessoal.

Num grande espaço aberto de terra vermelha batida, envolvida por estes edifícios funcionava a parada do quartel.


outros espaços e nas proximidades das casernas existiam abrigos ou valas que funcionavam como protecção quando dos embrulhanços (contacto pelo fogo com o inimigo, ataque, emboscada), na retaguarda dos edifícios uma parcela de terreno já com alguma dimensão, era utilizado para nos dedicar-mos à agricultura, espaço gerido pelos sargentos da companhia e onde se criou uma horta da qual se extraia uma enorme variedade de legumes e frutos para consumo do pessoal.

De assinalar também um espaço de lazer destinado à prática de várias modalidades desportivas.

De referir ainda a existência de um heliporto que funcionava como apoio às operações de maior envergadura desencadeadas a partir da nossa unidade.

As tabancas colocadas no exterior junto ao quartel estavam prontas a serem habitadas pelos militares africanos e suas famílias, mas continuavam vazias, apesar da insistência do então governador da Guiné, general António de Spínola (o homem do monóculo) continuavam a recusar fazê-lo argumentando que o corpo deles e dos seus familiares nunca serviriam de escudo às balas e granadas vindas do outro lado.

Spínola, tinha na altura na zona de Teixeira Pinto, a elite de oficiais, numa aposta em conseguir transformar o chão manjaco, num caso de sucesso na adesão das populações à sua política.

Foi assim neste cenário que iniciei o cumprimento da minha missão agora um pouco já mais esclarecido sobre qual o verdadeiro papel a desempenhar naquela muito pobre mas bela terra africana, porque por cá o que nos era transmitido por alguns dos nossos superiores tinha apenas e só como objectivo incutir-nos o espirito da defesa do nosso território invadido pelos   
, quando consoante a análise e perspectiva de cada um a realidade poderia ser outra.
Nos primeiros dias senti toda uma necessidade de me ambientar a um novo e complexo conjunto de situações, às pessoas, aos locais, ao clima e a tudo o que de novo me rodeava, pois eram bem evidentes as diferenças sentidas, se considerar que praticamente nunca tinha saído do meu habitat e juntando o facto de em menos de vinte e quatro horas, ver-me envolvido num ambiente de guerra, sem qualquer preparação especifica para tal e logo colocado numa das zonas de maior impacto operacional.
A companhia foi inicialmente comandada pelo capitão José Fernandes Martins, que após terminada a sua comissão, também foi substituído pelo capitão de Infantaria, Abilio Dias Afonso, dois oficiais que hoje, reconheço terem tido extrema importância na complexa gestão da unidade.
Mis tarde e já na parte final da minha comissão, foi comandante da companhia o capitão miliciano Luis Queirós Fonseca.
Os oficiais comandantes de companhia eram os executantes directos de toda a actividade, usando de grande capacidade de decisão e imaginação para solucionar os mais diversos problemas administrativos, logísticos e humanos com que se deparavam frequentemente.
Estes homens foram, quer no aspecto militar, mas particularmente no humano três referências extremamente importantes para a maioria dos militares que passaram pela companhia, em particular para os portugueses, tanto pela amizade e camaradagem como pelo apoio moral, na ajuda da resolução dos mais difíceis e variados problemas com que cada um dos militares se debatia.
Logo nas primeiras horas de permanência no Bachile, apercebo-me da existência no quartel, de um garoto africano aparentando cerca de três ou quatro anos, achei estranho e de imediato tentei informar-me para a justificação da presença naquele cenário de uma criança de tão tenra idade.
Fiquei esclarecido ao ser informado que o motivo da sua presença, era o resultado de um resgate efectuado pelas NT, durante uma operação militar na zona da mata da Caboiana, e que de entre muitas outras consequências, ter resultado na morte do pai e na fuga da mãe para o interior da mata.
Perante a situação, os nossos militares trouxeram o garoto que ficou a viver na unidade protegido pelas NT e segundo o que na altura me foi dado a conhecer, ao abrigo das leis militares vigentes, foi-lhe atribuído o estatuto de prisioneiro de guerra.
Foi necessário dar uma identidade à criança e de acordo com os militares envolvidos na altura nesta acção, anuíram que seria baptizado com o nome de Augusto Martins Caboiana.






A razão da escolha deste nome atribuído ao jovem, teve a ver com o facto de o soldado que o resgatou se chamar Augusto, o comandante de companhia nesse período era o capitão Martins e o local onde se deu este acontecimento ser conhecido por mata da Caboiana.
Facilmente apercebo-me que a assistência necessária dispensada aquele garoto para o seu natural desenvolvimento era prestada voluntariamente por alguns dos militares que iam transitando pela companhia e que dispunham de maior disponibilidade e tratando-se de militares em situação de rendição individual, essa tarefa foi sendo distribuída por diversos elementos.

ante a situação e sendo previsível vir a dispor de bastante tempo livre de imediato me disponibilizei para integrar esse grupo, colaborando no que fosse necessário.

Acompanha-lo nas refeições, no banho ou vesti-lo entre outras, eram algumas das tarefas executadas por cada um.

Era igualmente necessário disponibilizar algum tempo dedicado às brincadeiras próprias da sua idade, ensina-lo a conhecer as primeiras letras e números ou responder a algumas das suas interrogações, eram tarefas muito importantes porque, para além de ser natural na sua idade, o seu desenvolvimento já era notável fruto do meio ambiente onde estava inserido e de naquela cabeça, começar já a existir algumas dúvidas e confusões, causadas pela convivência próxima com muita gente, permitindo que alguns menos bem-intencionados o tentassem influenciar negativamente contra nós os “Tugas” portugueses.

Porque na altura eu ainda não tinha passado pela experiência de ser pai, esta foi sem dúvida uma oportunidade bastante rica e gratificante, contribuindo até de uma forma positiva, para ultrapassar melhor as dificuldades de alguns dos dias ali vividos.

O estatuto de prisioneiro de guerra atribuído ao jovem, não permitia que se ausentasse da zona próxima do Bachile, sem a superior autorização de Bissau.

Foram várias as tentativas que militares vindo de férias à metrópole, no sentido de conseguirem autorização para trazerem o Augusto, mas o resultado das diversas petições foi sempre negativo.


Apesar de colocados num palco situado bem no interior do mato cujo principal cenário era a guerra, com a qual nos íamos habituando a lidar, não obstava que houvesse regras definidas a cumprir quer na organização quer no desempenho das funções destinadas a cada um.

A situação e as condições obrigavam a que fosse necessário cada militar estar disponível vinte e quatro horas por dia, havendo no entanto um horário compreendido entre as 9 e as 17 horas, destinado a tratar da logística e do expediente administrativo da companhia, onde o respeito pela hierarquia militar se fazia sentir, não de uma forma demasiado rígida e militarista porque do total de efectivos incluídos na companhia, só o primeiro e o segundo sargentos eram militares de carreira.

Os comandantes que passaram pela unidade durante a minha permanência no Bachile, bem como os restantes oficiais e sargentos, eram militares milicianos ou do quadro, que após o horário de expediente, muitas vezes se despiam por completo do seu papel de militares, passando o relacionamento entre todos a pautar-se por um princípio de completa igualdade.

 Esta forma de relacionamento, revelou-se ser de extraordinária importãncia na consolidação da união entre todos.

O capitão Fonseca que substituiu o capitão Abilio Afonso no comando, era natural da zona de Coimbra e se a memória não me falha tinha formação académica na área de direito, tendo sido repescado para cumprir uma comissão já depois de terminado o seu normal tempo de serviço militar.

O sargento Guerreiro natural da cidade de Tomar, tinha já no seu curriculum militar várias comissões de serviço em diferentes locais e apesar de inicialmente ter feito parte das tropas pára-quedistas, estava por razões de ordem disciplinar colocado no exército como 2º sargento.





Normalmente acordava bastante cedo, depois o meu dia no Bachile começava com um bom e reforçado pequeno-almoço que variava entre um simples café com leite, após o complexo mas divertido exercício de retirar todas as moscas e abelhas que envolviam a cafeteira de cinco litros, pão com manteiga, marmelada ou queijo, ou ainda duas mangas, papaias ou outros frutos bem frescos que previamente tinham sido colocadas na arca frigorífica no dia anterior.

Em alternativa um saboroso pão com chouriço acabado de sair do forno para acompanhar o conteúdo de uma lata de ração de combate contendo (dobrada, jardineira bife de vaca ou atum) sempre acompanhado da respectiva bazuca bem fresca como convinha.

Depois sim estava na hora de ir ao trabalho, abria a minha oficina e preparava-me para responder às mais diversas solicitações, que passavam pela distribuição do fardamento, do equipamento bélico ou outro, registando em cadernos de carga com os nomes e números dos militares, as saídas e entradas de material, de forma a controlar os consumos.

De seguida repor sempre que necessário as munições em falta nos diversos postos de defesa e vigia, e ainda reparar as avarias do diversificado armamento.
  
A observação e reparação das armas supostamente avariadas originaram por vezes situações que tanto tinham de caricatas como de perigosas, quando por exemplo um militar africano dirigiu-se a mim com a arma em posição altamente incorrecta e com munição encravada no interior da câmara ou ainda quando me traziam na mão uma granada de dilagrama já com a cavilha de segurança retirada.


















                  



                                                          











GUINÉ BACHILE-1972-1974 II




 Algum tempo decorrido após levantar-mos da Ilha do Sal, já nos era possível pelas janelas do avião visualizar os contornos do território da Guiné.

 A aproximação é rápida e a minha primeira impressão é a de uma paisagem bastante interessante e de grande beleza onde sobressaem os rios e os lagos serpenteando a floresta.

Bissau era já ali, aterramos em Bissalanca a cerca de 10 quilómetros da capital, nove horas após a saída de Lisboa, na BA12 (Base Aérea N.º 12).

Chego a Bissalanca por volta das dez horas da manhã, ao abrirem-se as portas do avião, fico com a sensação de se terem aberto as portas de um forno, sofro o primeiro grande impacto causado pela elevada temperatura que já se fazia sentir aquela hora juntamente com a alta percentagem de humidade.

 O ar extremamente abafado e o céu muito nublado marcavam a diferença entre os onze graus registados à partida de Lisboa e os mais de quarenta depois de chegado à Guiné, o que se tornou inicialmente bastante difíceis de suportar.
Transportado de imediato em coluna militar para o quartel de depósito de adidos em Brá, localizado nas proximidades da cidade, fiz a apresentação na secretaria de forma a registar a minha chegada e saber o que me esperava de seguida, apesar de, desde que fui mobilizado, ter já conhecimento que o meu destino era o Bachile, (local situado a meio caminho entre Teixeira Pinto e Cacheu e onde estava instalada a C CAÇ 16).




 Mal dispus de tempo para confraternizar com alguns camaradas que se juntavam na parada do quartel de adidos, na esperança de poderem encontrar entre os recém chegados alguém conhecido ou vindo de perto da sua terra Natal, para obterem informações e notícias do Puto (designação que se dava a Portugal quando nos referíamos á metrópole).

 Pouco tempo decorreu após a apresentação na secretaria dos adidos até ouvir anunciar através da aparelhagem sonora do aquartelamento, o meu nome e número mecanográfico no sentido de levantar uma guia de marcha, para de seguida me inserir numa coluna a formar poucas horas depois com destino a Teixeira Pinto (Cachungo, Chão Manjaco) e daí para o Bachile.

 O percurso entre Bissau e Teixeira Pinto é moroso e prolonga-se por várias horas porque, para além da distância a percorrer, havia ainda a particularidade de a coluna ser formada por diversas viaturas militares e civis intercaladas entre si que por motivos de segurança era feito em velocidade reduzida.

 Em João Landim, 30km a Norte de Bissau, era necessário fazer uma longa pausa para cambar (atravessar um rio) o rio Mansoa.

Este rio, com uma grande distância entre margens, foi durante muito tempo um enorme obstáculo para se chegar de Bissau ao Norte do território, o seu leito tinha muito lodo e só através da jangada era possível transpor essa barreira natural.

 Atravessava-se o rio Mansoa sob protecção de um grupo de fuzileiros que fazia segurança à zona, na já célebre jangada (ferry-boat), aproveitando-se o tempo das longas esperas enquanto se faziam os vários percursos de ida e volta, confraternizando com os elementos das diversas companhias e grupos presentes, aproveitando para saborear uma  fresca


saborosa cerveja, acompanhada de caju bem picante ou mancarra (amendoim) vendido num mercado ali improvisado pelos mininos (rapazes) e bajudas (meninas ou raparigas virgens) nos seus recipientes coloridos de esmalte ou plástico, a troco de alguns pesos (unidade de moeda local).

 Na coluna, a segurança era garantida por pelotões operacionais e pelas Chaimites (viatura militar blindada de todo o terreno), que já substituíam as velhinhas auto metralhadoras Daimler que se inseriam a meio e à retaguarda, porque durante o percurso até Teixeira Pinto, surgiam por vezes algumas surpresas em locais cujas passagens eram pouco acolhedores e de más recordações para as NT.

 Depois entre os carros militares misturavam-se os mais diversos meios de transporte civis, autocarros, motorizadas, automóveis e camiões particulares que para além das populações e de animais, carregavam todo o género de artigos.

 Não faltava igualmente uma viatura militar Berliet, de apoio ao pessoal, especificamente destinada a transportar algumas caixas térmicas com muito gelo e atestadas de bazucas (cerveja de 0,6l), de Coca-cola, genuína ou de refrigerante Fanta que, bem geladas resultavam numa óptima ajuda para suportar melhor aquele intenso calor acompanhado de uma elevada percentagem de humidade próprio de um clima equatorial.

 A camisa e as calças ensopadas pelo suor já se colavam ao corpo causando um enorme desconforto particularmente para 
quem ainda não estava habituado aquelas condições climatéricas.

  Neste percurso até Teixeira Pinto, acusei de alguma forma os efeitos agressivos de tão brusco aumento da temperatura, por isso constantemente andava de viatura em viatura procurando algo para me refrescar e ao mesmo tempo conviver com outros camaradas que ia conhecendo, trocando impressões sobre a Guiné, a guerra e os diversos locais de destino de cada um ou ainda conversando sobre as últimas novidades da metrópole.
Os periquitos (designação atribuída aos militares recém chegados à Guiné) são facilmente detectáveis no meio de grupos cuja cor da pele e o estado usado e gasto dos camuflados indicam já terem algum tempo de permanência naquelas paragens.
No entanto a sua integração é feita de uma forma muito simples, natural e espontânea, resultante de um espirito de camaradagem muito elevado conseguido entre todos e sem distinção da patente.
Com frequência, o já lento andamento da coluna é interrompido, logo que é detectado o mínimo movimento ou ruído suspeito vindo da densa mata que envolve as proximidades da estrada.
Estas situações, são motivo para uma rápida intervenção do grupo operacional responsável pela segurança, saltando das viaturas, batendo a zona, evoluindo mato dentro com o auxílio das preciosas Chaimites, que velozmente saíam da estrada já alcatroada em direcção aos terrenos quase intransitáveis deixando o restante pessoal, civis e militares desarmados, em grande stress e sobressalto, protegidos apenas por pequenos grupos.
Entretanto, chegamos ao destino final já noite dentro e nesse dia apesar de algumas perturbações que apenas motivaram algum alarme e momentos de maior tensão o percurso foi concluído sem registo de problemas de maior.
                                  



 A chegada a Teixeira Pinto, onde estava colocado o CAOP 1 (comando de agrupamento operacional) já aconteceu noite dentro, depois da apresentação ao oficial de dia à unidade e devido ao adiantado da hora, já não me foi possível seguir nessa noite para o Bachile, por isso resolvi vaguear um pouco por ali tentando ambientar-me aquela nova realidade.
Até que a dado momento, alguém me informa que na caserna do pessoal de transmissões estavam dois camaradas operadores de crepito, naturais de Lisboa, e residentes nos Olivais.
Fui ao seu encontro de imediato e apesar de não nos conhecer-mos, esta feliz coincidência serviu para o inicio de um agradável momento de franca confraternização, onde estivemos em amena cavaqueira, permutando novidades, sempre bem acompanhados de umas bazucas frescas e uns pregos no pão, consumidos num bar existente à entrada da vila, propriedade de um comerciante cabo-verdiano e habitual ponto de encontro entre militares na vila de Teixeira Pinto.
 O regresso ao quartel dá-se já de madrugada, prolongando-se a conversa por mais algum tempo, até conseguir improvisar um local na caserna para descansar umas horas depois de um dia vivido de uma forma tão intensa e porque na manhã seguinte, era necessário estar preparado para viajar até ao Bachile.
 Teixeira Pinto, era uma vila com cerca de 9000 habitantes na sua grande maioria de etnia manjaca e dispersos num raio de 7 km, numa extensa área de habitações típicas, separadas por uma avenida central em terra batida, com duas largas faixas de rodagem e de onde sobressaiam alguns edifícios administrativos de construção colonial, a unidade militar, o posto do chefe da tabanca, (aldeia) e uma torre de vigia situada estrategicamente à entrada da vila.



          Na manhã seguinte, bem cedo, andava eu a contemplar aquela nova paisagem e desfrutar do ambiente tão característico com que aquela terra africana me recebia, proporcionando-me, o cheiro inconfundível, indefinível, inesquecível e hoje o cheiro de saudade, quando sou informado que o comandante da CCAÇ 16 (Companhia de Caçadores 16), capitão Martins, me procurava algures na vila no sentido de me transportar até ao Bachile.   

Quando nos encontrámos a apresentação não foi o que se podia considerar ter sido de muito amistosa, o motivo para tal reacção foi que para além do atraso verificado, o capitão Martins pensava estar perante o elemento que já mobilizado a algum tempo para aquele lugar, ainda não o tinha feito por ter desertado.
Tentei de imediato esclarecer a situação mas, rapidamente o jipe entra na estrada que liga Teixeira Pinto ao Cacheu (cidade costeira, junto ao rio com o mesmo nome, situada a nordeste do território) passando pela Ponte Alferes Nunes, (designação atribuída ao local onde estava instalado um destacamento das NT) percorrendo sensivelmente 16 km de estrada já asfaltada, por entre uma paisagem de denso capim, arvoredo vário e de palmeiras, cajueiros e coqueiros onde a espaços se encontravam
 algumas tabancas habitadas por uma população muito modesta e carente que vivia muito dependente do apoio prestado pelos militares





Chegados ao Bachile foi então possível esclarecer definitivamente o equívoco, agora já com a preciosa intervenção do sargento Guerreiro, militar do quadro que contribuiu para normalizar a situação, dando-se então início à minha nova missão que hoje concluo veio a transformar-se numa enorme experiência de vida.
Uma extensa mata, circunda um palmo de terra rodeado de arame farpado de onde sobressaem alguns edifícios pintados de branco que formam o complexo do quartel situado numa área de terreno de baixa elevação, assentes numa estrutura base de construção simples e de paredes finas feitas a tijolo e cimento, de aspecto recente e bem cuidado com telhados cobertos por chapas de zinco.
 No exterior e a poucos metros de distância, existia uma tabanca que incluía um conjunto de casas típicas construídas com cibes (ramo de palmeira), blocos sobrepostos e telhados cobertos com capim ou chapas de zinco, recentemente concluídas com o propósito de proteger e alojar a população manjaca, mas que ainda continuavam por habitar.
Feita a primeira apresentação, junto do 2º sargento Guerreiro, responsável pela logística, foi-me fornecido todo o material de apoio militar bem como o necessário para a montagem da cama e a respectiva roupa.
Após uma breve troca de impressões de âmbito pessoal e sobre as características da zona e da actividade geral do quartel, foi-me sugerido por este, a hipótese de ficar como responsável da arrecadação de armamento e fardamento, porque apesar de ter recebido especialização em reabastecimento de material, a minha mobilização, tinha como objectivo, substituir um mecânico de armas falecido em combate ao serviço da companhia.





quarta-feira, 2 de maio de 2012

GUINÉ BACHILE--1972-1974---I








Este registo, foi efectuado com imenso prazer e tem apenas como objectivo, poder partilhar com os meus familiares e amigos, o que considero ter sido uma extraordinária experiência de vida.


António Branco



                                                             




 Trinta e quatro anos após o regresso da campanha de serviço militar, que fui obrigado a cumprir, numa guerra sobre a qual hoje ainda se discute ter sido colonial, do ultramar ou de libertação, mas que também ainda hoje o estado português continua a ignorar os que foram obrigados a separarem-se das famílias, a interromper as suas carreiras profissionais e académicas e que trouxeram como recompensa, problemas vários de ordem física e psicológica.
 Num momento de reflexão sobre o tema e numa altura em que se ouvem imensas opiniões algo contraditórias e tendenciosas, resolvi transcrever, baseado na interpretação da informação recolhida no terreno com algum detalhe e à luz da minha experiência pessoal na falta de outros registos, como foram vividos os seiscentos e quarenta e sete dias, registados na caderneta militar, da minha permanência no Bachile, Chão Manjaco (território étnico) localizado a Nordeste da que hoje é designada por GUINÉ BISSAU.        
 Descoberta pelo navegador e explorador português Nuno Tristão em 1446, que viria a ser morto pelos indígenas, ao tentar desembarcar numa das ilhas do Arquipélago de Bijagós.
 Localizada na costa ocidental de África com uma área total de 36120km2, de clima tropical e situada sensivelmente a meia distância entre o Equador e o trópico de Câncer, tem um clima quente e húmido com duas estações: a quente e a da época das chuvas.
 A época das chuvas começa em Maio e prolonga-se até Novembro, a estação seca corresponde aos restantes meses do ano.



 Os meses de maior pluviosidade são Julho e Agosto, sendo os meses Dezembro e Janeiro os mais frescos, apesar de as temperaturas serem muito elevadas durante todo o ano.
 A população é composta por diversas etnias com línguas, costumes e estruturas sociais diferentes, 45% é muçulmana, Fulas e Mandingas concentrados a norte e nordeste.
 Outros grupos importantes são os Papéis e os Balantas na costa sul, os Manjacos e Macanhas ocupam o centro e o norte litoral.
 A sua economia depende fortemente da agricultura e da pesca, onde tem algum significado a exportação de amendoim, sementes de palma, madeira, peixe e mariscos.
 O arroz é o cereal mais produzido e a base da sua alimentação.
 A língua oficial é o português, embora o número de falantes não ultrapasse os 10%, no entanto mais de metade da população fala crioulo de origem portuguesa.




  Lisboa, 5 de Junho de 1972, aeroporto militar de Figo Maduro situado na Portela de Sacavém, são quase uma da manhã e na sala de embarque repleta de militares junto dos seus familiares e amigos, sente se um ambiente extremamente pesado.

 Após algumas palavras de circunstância proferidas por um oficial superior encarregue da cerimónia da partida, afirmando que iríamos para a Guiné, onde nos chamava o sagrado dever de todo o soldado português na defesa da pátria e onde ninguém tinha dúvidas da dificuldade da nossa missão mas, a nação tinha boas razões para confiar em nós.

 Pelo sistema sonoro da sala, são efectuadas duas chamadas para o embarque, das quais não resultou qualquer gesto indicativo de tal disposição.

Até que, após o terceiro e derradeiro aviso gerou-se alguma agitação com as derradeiras despedidas propositadamente apressadas dos familiares e amigos.

Cumpridas as habituais formalidades, entro juntamente com um grupo de cerca de sessenta militares num avião da FAP -

 (Força Aérea Portuguesa) modelo DC-6 (avião transporte militar adquirido pelo governo à T A P, por recusa dos E U A em nos venderem os C-130), para uma viagem que começou algo atribulada ainda na pista, indiciando alguns problemas técnicos, resultando numa longa espera na preparação para o aquecimento dos seus quatro motores a hélice, de forma a poder dar inicio ao voo, utilizando uma das pistas no sentido Sul Norte do aeroporto da Portela.

 Silêncio absoluto dentro de um avião com um ambiente pesado, frio e de algum desconforto.






Pela janela, desfruto de uma magnífica paisagem sobre a cidade de Lisboa que vista do ar à noite, deslumbra-nos oferecendo um espectacular quadro.

 Os seus maravilhosos monumentos bem iluminados, o rio Tejo com a sua bela e imponente ponte, a avenida marginal a abraçar o rio, ou ainda o cintilar das diversas luzes que iluminam a cidade, são imagens de extrema beleza que jamais esquecerei.

 Só o ruído algo ensurdecedor dos motores do velho avião, motivado por uma já deficiente insonorizarão e o bater das chapas provocado pelas folgas que o material já apresentava, cortavam aquele profundo silêncio, vivido no interior do aparelho.

 A dado momento e após largos minutos sem se ouvir uma palavra, um camarada que ia sentado ao meu lado verbalizou as seguintes expressões: (É pá olha que giro,) e (não sei se voltamos a ver isto).

  Respondi-lhe afirmativamente, apenas acenando com a cabeça.



 Lisboa, ficara para trás a tripulação composta por cabos especialistas da FAP, distribuíam-nos informações sobre o voo e normas de segurança, assim como alguns rebuçados para ajudar a descontrair e de prevenção para o enjoo e cobertores para nos agasalharmos durante as longas horas de viagem que tínhamos pela frente.

 A viagem para quem nunca tinha utilizado este meio de transporte estava a ser uma experiência menos agradável pelas imensas perturbações causadas por constantes poços de ar, ao que diziam muito frequentes nas rotas de África.

 Ao fim de algumas horas de voo somos informados que irá ser efectuada uma paragem técnica para reabastecimento e manutenção no aeroporto da Ilha do Sal, em Cabo Verde.


A ilha do Sal é uma das dez ilhas que compõem o Arquipélago de Cabo Verde, um paraíso tropical onde a extensa praia de Santa Maria com os seus 8 Km de extensão, é sem dúvida uma das atracções principais e destino habitual de muitos portugueses.

No entanto nesta altura, Cabo Verde vivia uma tremenda crise provocada por uma extensa seca de cinco anos com imensas consequências negativas para o seu povo.

         Tenho ainda bem presente na memória, a imagem de nos terrenos envolventes ao aeroporto, ver entre outros, esqueléticas vacas e cabras, pastando onde já nada havia para comer.

Apesar de não nos ter sido permitido sair do avião, foi possível verificar os efeitos da seca e também sentir já um pouco do ambiente e cheiro tão característico de África.

Foi igualmente possível constatar o aparato bélico causado pelos aviões FIAT-G91 (avião monomotor de reacção, subsónico de asa baixa e trem retratel) e os T6 (avião bombardeiro monomotor equipado com lança roquetes) estacionados numa das pistas, preparados para reforçar quando necessário o apoio à guerrilha na Guiné.

Depois de concluídas as operações de reabastecimento e verificações técnicas, voamos então em direcção ao destino final.












segunda-feira, 30 de abril de 2012

" GUINÉ"


Trinta e quatro anos decorridos sobre a minha presença na Guiné, durante a denominada “Guerra do Ultramar” e num momento particular da minha vida, de reflexão sobre o tema e também por falta de outros registos, resolvi recorrer á minha memória visual e começar a escrever para o computador, como eu vi e senti aquele período de tempo em terras africanas.
Sem quaisquer outras pretensões, quando terminei o testemunho dessa minha experiência, conclui que a devia partilhar e resolvi embora de uma forma extremamente limitada, encadernar o conjunto desses textos, criando assim um livro a que dei como título “Guiné Bachile 1972-1974”
Neste momento entendi que seria justo partilhar este meu trabalho com o maior número de amigos e assim vou fazê-lo com a periocidade possível neste meu blogue.

"FIM DE SEMANA"

Mais um fim de semana  pouco agradável e este particularmente  porque a meteorologia teima em não colaborar e porque acabei de assistir á entrega do título de campeão nacional ao F. C. Porto, pelo Benfica e pelos sucessivos lapsos dos seus jogadores  e do seu treinador nos últimos jogos e como se isso só  não fosse já  suficiente, também pelos lapsos da equipa de abritagem nomeadamente este fim de semana.
   Felismente e para terminar mesmo a noite, propociona-me assistir a um programa musical de imitações que independentemente de se gostar ou não do género, está semanalmente a descobrir autênticos valores nacionais que andavam por aí esquecidos e que segundo os entendidos na matéria, não ficam a dever nada a alguns dos  grandes nomes internacionais.
É tempo de os responsáveis portugueses apoiarem estes artistas em vez de esbanjarem milhares de euros em contractos e mordomias com estrangeiros de qualidade duvidosa.
Está na hora de fechar o portátil, enquanto a festa continua nas ruas do Porto e três canais da nossa televisão estão a dedicar-lhe o tempo de antena que consideram justificado.
Uma boa semana